CEAA - Centro de Estudos Arnaldo Araújo

Projeto

História Crítica do Cinema Português

As investigações sobre o cinema português têm aumentado consideravelmente, tanto por parte de investigadores nacionais como internacionais. Este interesse tem produzido textos com o foco em recortes cronológicos específicos e em realizadores com obra reconhecida internacionalmente, como são os casos de Manoel de Oliveira, João Cesar Monteiro ou Pedro Costa. Todavia, esta produção tem sido acompanhada por uma escassez de textos que façam uma leitura geral sobre a história e a estética do cinema português que sirvam de auxiliar aos trabalhos mais específicos dos pesquisadores bem como aos jovens estudantes e publico em geral. Assim, podemos observar um discurso muito reduzido sobre a história critica do cinema português: uma tese de doutoramento em Ciências da Comunicação com o titulo Cinema Português - Um País Imaginado, de Leonor Areal (2009) e um conjunto de textos, cujos autores tinham uma relação profissional como próprio cinema portuguese sem competências académicas ao nível da investigação. Referimo-nos aos sucessivos diretores da Cinemateca Portuguesa: Manuel Felix Ribeiro- Historial do Cinema Português entre 1896- 1949 (1983); Luís de Pina- Panorama do Cinema Português (1978) e História do Cinema Português (1986); João Benard da Costa - História(s) do Cinema Português (1986) publicaram textos que fazendo uma inventariação e descrição da História do Cinema Português não põem em pratica a cientificidade nos seus escritos, e paralelamente, ao assumirem uma dupla posição institucional e autoral não mantem a distancia adequada relativamente ao objeto de estudo numa investida impregnada de discurso oficial de estado.

Propõem-se um trabalho critico sabre a história do cinema português explorando as obras e os autores que contribuíram para a edificação da obra artística na cinematografia nacional. Neste objetivo, propõem-se o mapeamento e recuperação de filmes e realizadores que nos ajudam a seguir linhas de investigação que aportam a integração do cinema português no território mais vasto da História da arte portuguesa. Privilegia-se, como se depreende, o ângulo da criação e os rasgos originais que deixaram rasto e, neste sentido, refinar o perímetro da investigação, fugindo da compilação descritiva e apelando a capacidade sintética dos investigadores que, numa abordagem critica, exteriorizam uma visão global sinalizando evoluções e fraturas.

Uma perspetiva artística remete, desde logo, para a experiência estética que deriva do contacto com as obras estabelecendo relações entre os diferentes sistemas de representação do visível e do invisível na imagem, enfatizando o valor compositivo da imagética cinematográfica. Neste âmbito, privilegia-se a forma artística do filme e o arrojo do realizador para experimentar novas linguagens e inovações estilísticas, tome-se como exemplo o esquecido filme de Paulo Rocha: A Pousada das Chagas (1972) que anuncia o futuro programa estético do realizador au mesmo a revolução linguística do Acto da Primavera (1963) de Manoel de Oliveira. Por outro lado, valoriza-se igualmente a representação da realidade e o combate político, note-se que grande parte da época histórica retratada foi dominada per uma ditadura com mãos de Ferro na censura. Neste contexto, propomos a recuperação de realizadores que combateram o regime, como o caso de Manuel Guimarães, mesmo sabendo que as suas obras finais têm já a marca do assassinato artístico salazarista.

O estudo do devir artístico ensinou-nos que este e feito de continuidades e ruturas afirmando-se um processo dialético que, do seu interior, projeta as contradições da vida social sublinhando o próprio carácter contraditório da história da arte na medida em que o que se inscreve no seu perímetro deriva, de alguma forma, de uma estrutura dominante. Um trabalho como este, que tenta contrariar o discurso vigente, devera apresentar novas leituras sabre o fenómeno que investiga e assumir a sua inevitável subjetividade e parcialidade, absorvidas nas leituras efetuadas bem como na seleção dos autores e das obras trabalhadas.